Quem nunca passou por essa situação? Basta alguém bocejar em uma reunião, no transporte público ou até mesmo durante um programa de televisão para, poucos segundos depois, surgir aquela vontade quase irresistível de bocejar também. Esse comportamento é bastante comum, mas o que explica o fato de um gesto tão simples parecer tão “contagioso”? A resposta está relacionada a processos de comunicação, empatia e ao funcionamento do cérebro.
Apesar de parecer apenas um sinal de cansaço, o bocejo é considerado um comportamento complexo e muito antigo do ponto de vista evolutivo. Ele está presente em diversas espécies do reino animal, incluindo cães, gatos, aves, répteis e até alguns peixes.
Esse padrão de abrir a boca, inspirar profundamente e depois expirar é observado em praticamente todos os vertebrados, o que indica que o bocejo provavelmente possui uma função biológica relevante, muito além de apenas indicar sono.
A comunicação por trás do bocejo
A ciência sugere que o bocejo contagioso está associado a duas habilidades cognitivas: empatia e cognição social. A empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro e perceber suas emoções, enquanto a cognição social permite entender o que outras pessoas podem estar pensando ou sentindo. Essas competências são fundamentais para a convivência e interação em sociedade.
Por esse motivo, o bocejo contagioso geralmente não ocorre em crianças com menos de cinco anos, já que essas áreas do cérebro ainda estão em fase de amadurecimento. Por volta dos seis anos de idade, quando a percepção social começa a se desenvolver de forma mais consistente, até mesmo ouvir falar ou ler sobre um bocejo pode ser suficiente para desencadear essa reação.
Um sinal primitivo de alerta e vigilância
De acordo com a hipótese comunicativa, a mais aceita pela comunidade científica, o bocejo funciona como uma mensagem não verbal. Segundo a análise publicada no The Conversation, por Jorge Romero Castillo, professor de psicobiologia e pesquisador em neurociência cognitiva da Universidade de Málaga, o gesto comunica estados como sonolência, tédio, fome ou estresse.
Ao observar outra pessoa bocejar, o cérebro humano pode interpretar esse sinal de forma instintiva como um possível estado de menor atenção ou vigilância. Como resposta, um mecanismo neurológico pode ser ativado, aumentando o nível de alerta do observador.
Quando esse comportamento se propaga dentro de um grupo, ele pode contribuir para a sincronização do estado de atenção coletiva, favorecendo uma melhor preparação diante de possíveis riscos. Por essa razão, muitos pesquisadores consideram o bocejo contagioso como um possível traço evolutivo ligado a mecanismos ancestrais de sobrevivência.
Pessoas com transtornos que afetam a interação social, como autismo e esquizofrenia, tendem a ser menos suscetíveis ao contágio. Em contrapartida, indivíduos com níveis mais altos de empatia são mais propensos a “pegar” o bocejo de outra pessoa.

Imagem: Freepik
O que acontece no cérebro para que esse contágio ocorra?
A explicação para esse fenômeno pode estar nos chamados neurônios-espelho. Essas células cerebrais são ativadas tanto quando uma pessoa executa uma ação quanto quando apenas observa outra pessoa realizando o mesmo gesto. Elas desempenham um papel importante na imitação e também na capacidade de compreender o comportamento dos outros.
Quando um indivíduo observa alguém bocejando, os neurônios-espelho, especialmente os localizados no giro frontal inferior, podem ser ativados. Pesquisas com neuroimagem funcional também apontam a participação de outras áreas cerebrais associadas à empatia e às interações sociais, como o sulco temporal superior e o córtex pré-frontal ventromedial.
De modo geral, o cérebro tende a “simular” internamente a ação observada, o que pode aumentar a probabilidade de a pessoa repetir o bocejo de forma automática.
Contágio além da espécie humana
O mais interessante é que essa conexão empática não se limita aos seres humanos. O bocejo também pode ser contagioso entre diferentes espécies. É possível que você já tenha bocejado e, em seguida, visto seu cão ou gato fazer o mesmo. Isso acontece porque a empatia, em sua forma mais básica, é uma característica compartilhada com outros animais.
“O bocejo é uma forma ancestral de comunicação não verbal, uma maneira de dizer “fique alerta, pois eu não consigo agora”. E seu contágio serviria para transmitir essa mensagem ao restante dos membros de um grupo. Além disso, não se deve esquecer que ele está presente em uma infinidade de animais, o que corrobora a enorme antiguidade desse ritual”, diz o professor de neurociência cognitiva, Jorge Romero.
E aí, quantas vezes você bocejou ao ler essa notícia?
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