Trânsito

Motoristas devem ficar atentos: associação aponta riscos nas alterações do trânsito

Abramet lança diretriz científica e alerta que alterações no trânsito ignoram limites do corpo humano

Publicado por
Yasmin Santos

Uma mudança pequena no velocímetro pode ter um custo enorme em vidas. Aumentar a velocidade permitida em uma via em apenas 5% pode elevar em até 20% o número de mortes entre os usuários que circulam por ela — e esse dado, por si só, já deveria fazer qualquer motorista pensar duas vezes antes de acelerar.

Mas o cenário ficou ainda mais delicado com a recente autorização para a renovação automática da CNH sem exames de aptidão. É nesse contexto que a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) lança um alerta que não pode ser ignorado.

O que diz a Abramet sobre os riscos no trânsito

Os dados da Abramet serviram de base para a nova diretriz Tolerância Humana a Impactos: implicações para a segurança viária, documento que consolida evidências científicas sobre os limites do corpo humano em situações de colisão.

Em nota, a entidade reforça que decisões administrativas no trânsito precisam considerar os limites biomecânicos do corpo humano e o impacto direto da velocidade na gravidade dos sinistros.

O recado é direto: as regras de trânsito não são apenas burocracia. Elas existem porque o corpo humano tem limites físicos reais — e esses limites não negociam com medidas provisórias.

O princípio central da diretriz

“A diretriz parte de um princípio central: o corpo humano possui limites biomecânicos inegociáveis e eles devem ser o ponto de partida das políticas públicas de trânsito.”

Isso significa que a velocidade não é só uma questão de comportamento ou infraestrutura. É uma questão de biologia.

Velocidade e energia: uma relação perigosa

O documento demonstra que a energia liberada em um sinistro cresce de forma exponencial com a velocidade, ultrapassando rapidamente a capacidade fisiológica de absorção do impacto — sobretudo entre usuários vulneráveis das vias, como pedestres, ciclistas e motociclistas.

Pequenas mudanças, grandes consequências

O documento mostra que pequenas reduções de velocidade geram quedas expressivas no risco de morte, enquanto acréscimos aparentemente modestos elevam de forma desproporcional a gravidade dos sinistros.

Ou seja: andar um pouco mais devagar salva vidas. E andar um pouco mais rápido pode custar uma.

O papel dos SUVs no aumento do risco

Um dado que chama atenção diz respeito à frota de veículos maiores. A diretriz alerta para o impacto crescente da expansão da frota de SUVs e de veículos com frente elevada, associados a maior risco de lesões fatais em pedestres e ciclistas, mesmo em velocidades moderadas.

Entidade orienta motoristas a ficarem atentos às mudanças nas vias. Fonte: Freepik.

Quem mais sofre com os sinistros de trânsito

Dados recentes do DataSUS mostram que pedestres, ciclistas e motociclistas respondem por mais de três quartos das internações hospitalares relacionadas ao trânsito — cenário agravado pela combinação entre alta velocidade, infraestrutura inadequada e baixa proteção física.

Além disso, em colisões com usuários fora do veículo, a velocidade responde por cerca de 90% da energia transferida ao corpo da vítima.

Quem está fora de um carro — seja a pé, de bike ou de moto — absorve quase toda a força do impacto. Esse dado muda a perspectiva sobre o que significa “dirigir com responsabilidade”.

Renovação automática da CNH: o que a ciência diz

O programa de renovação automática da CNH, regulamentado pela Medida Provisória 1327/2025, beneficiou 323.459 condutores na primeira semana de validade, com economia de R$ 226 milhões em taxas e exames.

A medida tem apelo prático e financeiro. Mas a Abramet aponta um risco que vai além do custo administrativo.

Aptidão para dirigir não é permanente

O documento reforça que condições clínicas como envelhecimento, doenças neurológicas e cardiovasculares, distúrbios do sono, osteoporose e sequelas de traumatismos reduzem de forma significativa a tolerância humana a impactos e à desaceleração, exigindo avaliação periódica e individualizada pelo médico do tráfego.

Em outras palavras: a aptidão para dirigir não é um estado permanente, mas varia conforme a condição de saúde, a idade e o contexto de exposição ao risco.

Quem não pode renovar automaticamente

Alguns grupos de motoristas estão fora do benefício da renovação automática:

  • Motoristas com 70 anos ou mais, que devem renovar a cada três anos
  • Condutores com CNH com validade reduzida por recomendação médica
  • Motoristas com o documento vencido há mais de 30 dias
  • Para motoristas com mais de 50 anos, o processo automático será permitido uma única vez.

Quem pode renovar a CNH automaticamente

Para participar do programa, o motorista precisa estar no Registro Nacional Positivo de Condutores (RNPC). Para isso, o condutor não pode ter tido registro de infrações de trânsito nos últimos 12 meses e deve realizar o cadastro por meio do aplicativo Carteira Digital de Trânsito (CDT) ou no Portal de Serviços da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).

O que a Abramet recomenda para gestores e sociedade

A norma apresenta recomendações para gestores públicos, instituições de ensino e sociedade, defendendo a adoção de limites de velocidade compatíveis com a tolerância humana, além de políticas permanentes de gestão da velocidade e campanhas educativas.

A entidade resume bem o problema: “Ao reunir dados epidemiológicos, biomecânicos e clínicos, a Abramet reforça que decisões sobre trânsito não podem se apoiar apenas na fluidez ou na conveniência administrativa.”

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