Sabe aqueles programas de TV que mostram pessoas acumuladoras, com casas cheias de objetos? Revistas, roupas, embalagens e até lixo se empilham, transformando os lares em verdadeiros depósitos. Para quem vê de fora, a solução parece simples: basta jogar tudo fora.
No entanto, para a pessoa que vive essa realidade, a situação é muito mais complexa, é um sinal do transtorno de acumulação, uma condição de saúde mental que causa profundo sofrimento e está ligada a questões emocionais profundas, como o medo do futuro.
A ideia de se desfazer dos itens causa uma angústia. Isso vai muito além de ser um colecionador; enquanto um colecionador organiza e exibe seus itens com orgulho, o acumulador vive em meio ao caos, com espaços da casa se tornando inutilizáveis.
Raízes psicológicas e o medo do amanhã
Não existe uma causa única para o transtorno de acumulação, mas especialistas apontam para uma combinação de fatores psicológicos e emocionais. O psicólogo José Maria Montiel explica para o portal Agência Brasil que a ansiedade desempenha um papel central. Ao longo da vida, essa ansiedade pode se manifestar em manias e comportamentos compulsivos, que se intensificam com o envelhecimento e o isolamento social.
Uma das justificativas mais comuns de quem acumula é a possibilidade de precisar dos objetos no futuro. “E se um dia eu precisar disso?” é um pensamento recorrente. Esse apego não é sobre o valor material, mas sobre o valor emocional e a segurança que o objeto representa.

Imagem: Freepik
Isolamento social: Uma consequência e um gatilho
O comportamento de acumular geralmente leva a um ciclo de isolamento. A vergonha e o constrangimento com a condição da casa fazem com que a pessoa evite receber visitas de amigos e familiares. Com o tempo, essas relações se desgastam, e o indivíduo se fecha em seu próprio mundo, cercado por seus objetos.
Esse isolamento, por sua vez, pode agravar o transtorno. Sem interação social, os objetos passam a ser uma forma de companhia e ocupação. A pessoa perde a noção crítica sobre sua realidade, e o que para os outros é um ambiente insalubre e perigoso, para ela é uma fortaleza de segurança.
Segundo Montiel, o problema atinge todas as classes sociais e níveis de escolaridade, mostrando que não está ligado a condições materiais, mas a um sofrimento emocional profundo.
Quando o acúmulo se torna um perigo
Um evento ocorrido em 2025, noticiado pelo portal Agência Brasil, ilustra o perigo: uma casa de três andares pegou fogo em Realengo, no Rio de Janeiro, e o morador, um idoso, tentou por duas vezes retornar ao imóvel em chamas, sendo impedido pelos bombeiros. Seu desespero não era por uma pessoa, mas pelas montanhas de objetos acumulados que alimentavam o incêndio.
O major Fábio Contreiras, porta-voz do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro na época, relatou que situações como essa são comuns. O material acumulado, muitas vezes inflamável, não só aumenta o risco de incêndios mais agressivos, como também bloqueia portas e janelas, dificultando a fuga e o trabalho das equipes de resgate. Além do fogo, há perigos de quedas, contaminação por pragas e problemas sanitários decorrentes do mofo, poeira e alimentos estragados.
A família também sofre
Ver um ente querido vivendo em condições precárias faz com que os familiares ao redor também sofram. Ivana Portella, fundadora da empresa A Casa com Vida, ressalta que os objetos funcionam como um “suporte emocional” para o acumulador. Por isso, a intervenção de um personal organizer só pode ocorrer com o acompanhamento de psicólogos ou psiquiatras.
O trabalho do organizador não é apenas limpar, mas guiar a pessoa no processo de triagem e descarte, sempre respeitando seu ritmo e suas decisões. O objetivo final não é ter uma casa perfeitamente arrumada, mas resgatar a qualidade de vida e o bem-estar da pessoa.
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