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Estudo do Ipea mostra que pessoas trans ainda enfrentam dificuldades para conseguir emprego

Estudo inédito do Ipea revela desigualdades na inserção de pessoas trans no mercado de trabalho brasileiro

Publicado por
Yasmin Santos

Enquanto o Brasil avança em algumas pautas de direitos humanos, uma parte da população ainda enfrenta enormes dificuldades para conquistar algo aparentemente simples: um emprego com carteira assinada.

Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) trouxe números que chamam atenção. A pesquisa mostra que pessoas trans ocupam apenas uma fração do mercado de trabalho formal. A diferença salarial também impressiona, chegando a 32% abaixo da média nacional. Os dados revelam uma realidade que muitos desconhecem e que merece reflexão.

O que o estudo do Ipea descobriu sobre pessoas trans

A nota técnica intitulada “A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal” integra o Boletim Mercado de Trabalho nº 80, publicado em outubro de 2025. O estudo utilizou uma metodologia inédita no Brasil, cruzando informações do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).

Como a pesquisa identificou a população trans

Os pesquisadores do Ipea analisaram alterações de nome e gênero nos registros da Receita Federal entre 2023 e 2025. Também consideraram pessoas com nome social registrado. Ao todo, foram identificadas 38,7 mil pessoas trans com idade entre 14 e 64 anos.

Desse total, 47,6% realizaram alteração de nome e gênero no período. Outros 45,8% possuíam nome social no cadastro. A maior parte está concentrada na faixa etária de 18 a 30 anos, representando 59,8% do grupo.

Taxa de emprego formal é inferior à média nacional

O cruzamento dos dados do CPF com a Rais de 2023 revelou que apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente naquele ano. Esse percentual fica 6,8 pontos abaixo da taxa da população geral, que é de 31,8%.

Mulheres trans enfrentam mais dificuldades

A situação se mostra ainda mais grave para mulheres trans. A taxa de participação no mercado formal é de apenas 20,7%. Entre homens trans, o índice chega a 31,1%, valor mais próximo da média masculina geral.

Pessoas não binárias apresentam taxa de participação de 23%, também abaixo da média da população.

Diferenças regionais na contratação de pessoas trans

O estudo identificou variações entre as regiões do país. O Nordeste registra a menor taxa de inserção, com apenas 17,8% das pessoas trans empregadas formalmente. O Centro-Oeste aparece em seguida, com 24%.

Sul e Sudeste apresentam os melhores índices, embora ainda inferiores à média geral. O Sudeste concentra 51,1% das pessoas trans identificadas na pesquisa, seguido pela região Sul, com 15,9%.

Rendimento médio fica 32% abaixo da média nacional

Além das dificuldades para conseguir emprego, quem está no mercado formal recebe menos. O salário médio das pessoas trans no Brasil é de R$ 2.707 por mês. A média nacional, por sua vez, chega a R$ 3.987.

Escolaridade não elimina a desigualdade salarial

A diferença persiste mesmo entre profissionais com ensino superior completo. Uma pessoa trans com diploma universitário recebe, em média, 27,6% menos que um profissional não trans com a mesma formação.

Apenas 13,5% das pessoas trans empregadas possuem ensino superior completo. Na população geral empregada, esse percentual corresponde a 20,4%.

Pesquisa do Ipea aponta dificuldades de inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho.. Fonte: Brendan McDemid/ Reuters.

Concentração em setores de menor remuneração

Mais da metade das pessoas trans empregadas formalmente está em apenas três setores: comércio, atividades administrativas e alojamento e alimentação. Essas áreas costumam oferecer salários mais baixos e menor proteção trabalhista.

A participação no setor público é especialmente baixa. Somente 5,5% têm vínculos estatutários, proporção duas vezes menor que a da população total.

Desigualdade racial agrava o cenário

O estudo mostra que marcadores sociais como raça ampliam as disparidades. Uma pessoa trans preta ganha, em média, 80% do salário de uma pessoa trans branca. Além disso, recebe 26% menos que uma pessoa preta na população geral.

Pessoas trans negras, pardas e indígenas enfrentam os menores rendimentos entre todos os grupos analisados.

Por que os dados podem estar subestimados

Os pesquisadores alertam que o estudo capta apenas uma parte da realidade. A metodologia considera somente pessoas que realizaram retificação de nome ou gênero nos registros oficiais.

Pesquisas da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) indicam que mais de 60% das pessoas trans ainda não fizeram esse processo. Os motivos incluem custos elevados e burocracia excessiva.

O caminho para políticas públicas mais efetivas

Para os autores do estudo, os resultados mostram a necessidade de ações específicas. A formalização da identidade nos registros oficiais é um passo importante para que o Estado possa criar estratégias de inclusão.

O Ipea sugere ainda a ampliação das pesquisas, incluindo dados de Microempreendedores Individuais (MEIs) e trabalho doméstico. Estudos futuros podem avaliar diretamente os efeitos da discriminação sobre as oportunidades de carreira.

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